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Destino no Asfalto

Publicado: 28/10/2009 em Crônicas
Mais um dia de trabalho e lá vai o motoqueiro pelas ruas de São Paulo, personagem anônimo na imensa paisagem de concreto da grande cidade, insólito em seu tricotear busca os espaços que o levam ao destino da rotina diária do existir.

Mas ele não vê que o destino pode estar logo ali à frente, escondido no asfalto sob as águas turvas da chuva que castiga  a cidade cinza e apressada que alimenta e também devora seus habitantes. O destino ignora os sonhos do personagem…lar, amores, laços, abraços, risos e choros espalhados pelo ar…

Um segundo e o destino se faz: a vida é lançada aos ares, cai simplesmente o corpo estatelado no asfalto, o sangue sendo lavado pelas águas da chuva, novamente atrapalhando o tráfego de mais um dia frio e cruel na cidade que não pode parar.
Rapidamente o burado é tapado, será chamado de fatalidade camuflando o descaso, a omissão. A vida dos sobreviventes continua escrevendo a cada dia seu próprio destino…até encontrar um buraco no chão.

Um pai, um filho, um amante…hoje mais um alguém não vai voltar para casa.







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PELAS RUAS

Publicado: 08/05/2009 em Crônicas

Onde mora a dignidade humana? Esta foi a pergunta que me fiz.

A mulher vinha pela rua, vestes surradas, cabelos desgrenhados, olhar inseguro. Parou, olhou a rua, atrás de um poste tirou da sacola uma garrafa PET com água, despiu-se da peça íntima por baixo da saia comprida e agaixando-se lavou sua intimidade, olhando para os lados como se pudesse assim evitar possíveis olhares.

Meus passos diminuiram como a querer preservar aquele momento de pivacidade ali tão exposto na calçada pública esburacada. Passei por ela querendo ser invisível e pensando que eu estava indo e voltaria…e ela talvez nunca voltasse por não ter de onde partir, num ir e vir para o nada.

Não olhei para trás, não sei se pela consciência leve ou pesada.

Onde ela mora, a tal dignidade? Onde mora não sei, mas sei que pode ser muito…muito pouco.